Antonio Casado
Maricarmen
Fico triste. Roubarem-me o Outono. Definitivamente me roubarem o Outono. Já há tempo que paseninhamente ia-se erosionando o típico espírito outonal, mas agora o roubo é definitivo. Também roubarem a Primavera, mas á minha idade a Primavera é uma ilusão que fica numa nebulosa de tempo passado, algo que vai parecendo irreal extraviado em lembranças isoladas. Estimava o Outono como um tempo de tranquilidade. Enriquecido seu cromatismo com o novo color que vão tomando as folhas das árvores que como borboletas voam até o chão. Lembrava nas propriedades rurais de meu avó, quando eu era neno, a dureza dos trabalhos de verão, da seitura, da sega, da malha, da vindima (sempre alegre, mas dura) ... baixo a seca e um sol de justiça; a seguir chegava o outono que fazia de contraponto, baixava a calor, o tempo era mais sereno e agarimoso com suas noites mais tépidas, os dias menos calorosos, e os trabalhos mais descansados, o calcado nas cubas do vinho a ferver, a recolecção e esfolha do milho (dava lugar aos fiadeiros mais divertidos), recolhida de castanhas, nozes, os cogumelos, a sementeira, chegam as chuvas, obsequia-nos com dois veraninhos leves, os de São Miguel e o de São Martinho,... e começa a remuda de pássaros do verão aos próprios do inverno; define-o a “Oda a Outono” de John Keats: “Estação de nevoas e estação frutífera./ Colaboradora íntima de um sol que já vai amolecendo...”.
Certo que o evoluir da indústria levou a que os tradicionais trabalhos, com médios obsoletos, se substituíssem por outras ferramentas que melhoraram e facilitaram as labouras; e que já não há tantas aves na remuda. Mas o outono conservava sua pessoalidade, sua singularidade que o fazia claramente diferente do verão que deixara atras como do inverno por vir. Agora me roubarem esse outono, começando por um outubro que, sem frio, semelha louco como meu fevereiro, perdeu sua tradicional serenidade, temperatura elevada, chuva desmadrada, tempo indefinível e imprevisível, que não respeita nem os velhos ditos da sabedoria popular.
Tanto importante é o Outono que raro é o poeta que não canta a estação que se distinguia pola sua tranquilidade, cromatismo, fartura, preparação para um inverno duro e insensível.
O outono cinzoso que cantava Blanco Amor: “Polos caminhos de outono/ leva-me no carro, leva./ Mais quero outono cinzoso/ que alampada primavera”. Ou o outono crescente de Guerra Dacal: “A outonia crescente,/ esmorecida,/ mole e evanescente,/ de frágil arrebol/ do sol/ poente”. Ou o saudoso de Antón Tovar: “O outono já chegou como uma rola/ de loxanos países tépidos,/ tangendo nas suas plumas mornas/ a saudade, o silencio”. O vital de Manuel Maria: “Chegou o tempo de Outono/ pras castanhas varear./ ¡Chegou o tempo do sono/ e a sazão de sementar!”. Ou o de Pessoa: “No entardecer da Terra,/ o sopro do longo outono/ amoleceu o chão...”.
Tanto importante é o Outono que raro é o poeta que não canta a estação que se distinguia pola sua tranquilidade, cromatismo, fartura, preparação para um inverno duro e insensível. Também na vida das pessoas o outono da vida é essa idade na que presumivelmente reduzes teus compromissos com o trabalho e com a economia familiar. acougas do tráfego vivencial anterior e te preparas para o inverno, ou inferno, prévio á morte. Outono é uma época do ano abundantemente recolhida no refraneiro popular (“sereio outono, inverno ventoso”, “outono verdadeiro, no São Miguel o primeiro chuveiro”, “quando ás seis vejas obscurecer, outono é”), que agora fica geralmente desfasado, pois pouco coincide com o espaço que ocupava o outono roubado.
E quem me roubou o Outono? A mãe Natureza? Não, a Natureza defendesse como pode para conservar ordenadamente o discorrer da vida e das épocas que são para sementar, para recolher, para descansar ou para troulear. Só o afã de desfazer radica no homem, na sua avareza, na sua insolidariedade. Se a criação do mondo foi como dize o Cristianismo, foi mágoa que o Criador não detivesse seu trabalho o quinto dia, quando rematou com os animais, que controlam sua supervivência e a do térreo no que vivem. O fiasco da primeira parelha criada, a de Adão e a temperamental Lilith, não se solucionou com a substituição por uma Eva mais submissa, porque o problema do homem e mulher fica na sua avareza, sem reparar no que destruí. Os negacionistas do câmbio climático, os negativistas de reduzir a contaminação, um Donald Trump que vai recortar miles de milhões em projetos de energia limpa, as indústrias que não reduzem suas emissões continuas de um CO2 que atingiu níveis sem precedentes...
Haverá vontade de restituir á Natureza tudo o que nos entregou em séculos? Alguém me devolverá o Outono roubado?
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