Eduardo Medrano
Motín de Esquilache
Li que o Partido Popular convocou um congresso para o mês de julho, que, segundo as informações, parece ser um congresso mais programático do que organizativo, ainda que ambas as cousas estejam intimamente ligadas, dado que os princípios ideológicos se encontram nas pessoas encarregadas de os defender e não no éter ou no mundo platónico das ideias. Por tanto , se houver mudanças, as pessoas escolhidas representarão também uma mudança ou uma continuidade ideológica. Assim, se o que se pretende é uma mudança na mensagem ideológica ou uma ênfase em novas mensagens, é normal que se mudem as pessoas, porque ou os actuais líderes são capazes de mudar a ideologia sem vacilar, o que revelaria certo cinismo, ou não o podem fazer por razões de convicção pessoal e, portanto, seria necessário substituí-los.
Os problemas do PP já não são apenas espanhóis, mas virão tambèm da Europa, e isto é algo de novo na política espanhola
Os desafios ideológicos que o PP teria de enfrentar, se o quisesse fazer, são muitos, pois há anos que não se realizava um congresso deste tipo e o ambiente no mundo da direita, não só em Espanha, mudou muito desde então. Numerosos partidos europeus do espetro ideológico do PP não se adaptaram aos novos tempos, desde a Democracia Cristã italiana aos republicanos gaullistas franceses, que estão quase extintos, e até os Tories britânicos e a CDU alemã vêem a sua primazia ameaçada no seu espaço natural. Todos eles estão ameaçados por forças de direita com fortes valores ideológicos, cada país com os seus, mas com denominadores comuns: a rejeição da imigração descontrolada, a crítica aos princípios pós-modernos do politicamente correto e o afastamento do que é entendido como os excessos da agenda verde que ameaçam o desenvolvimento económico, seja no campo da agricultura, da produção de energia ou da mobilidade eléctrica. Ainda que haja uma lógica de política interna em cada um destes países que pode explicar esta dinâmica, estes factores estão a afetar todos os eleitorados europeus. Embora alguns países do Sul, como Espanha, Portugal ou Grécia, ou outros, como a Irlanda, consigam contornar parcialmente esta deriva, é apenas uma questão de tempo até acabarem por ser afectados, direta ou indiretamente, pelas políticas seguidas noutros países europeus.
O PP não pode centrar a sua linha política apenas nos problemas políticos de Espanha e concentrar-se em tentar desgastar o governo de Pedro Sánchez ou inverter as suas políticas, se é que o vai fazer.
Para além do facto de, normalmente, não ser muito mobilizador para o eleitorado lutar contra algo, sem propor as suas próprias medidas positivas, a própria evolução da política europeia vai obrigá-lo a tomar as suas próprias posições sobre as questões acima referidas. Na minha opinião, o PP não tem uma posição bem definida sobre estas questões, o que pode causar confusão entre o seu eleitorado, cada vez mais exposto às dinâmicas políticas internacionais devido à influência das redes sociais e dos media alternativos. O que Trump, Milei ou Meloni estão a fazer já é cada vez mais conhecido e debatido na política espanhola e a direita hispânica moderada não pode continuar a refugiar-se apenas nos supostos desastres do sanchismo, para tentar substituí-lo simplesmente por uma melhor gestão pero baseada em princípios ideológicos semelhantes. Não só porque não pode evitar o debate de estes problemas, mas também porque, provavelmente, terá de contar com os parceiros espanhóis desta internacional de direita e, neste momento parece que não estão bem adaptados a esta forma de fazer política. Os problemas do PP já não são apenas espanhóis, mas virão tambèm da Europa, e isto é algo de novo na política espanhola, por isso, uma força séria como o PP deve tê-los em conta.
Contenido patrocinado
También te puede interesar
Lo último