Pilar Cernuda
CRÓNICA PERSONAL
Aquí no dimite nadie
Foi reavivado por estes dias um vídeo de há alguns anos do presidente do PP, Nuñez Feijoo, em que este afirmava que, perante a deriva à esquerda do governo socialista, o seu partido faria bem em ocupar o espaço deixado por este no centro e centro-esquerda, para que os eleitores desse espetro, que não se vêem representados no atual governo, pudessem ver no seu partido uma referência em que pudessem votar sem verem os seus princípios violados. A orientação de algumas das recentes votações no Congresso ou a sua posição em questões como o salário mínimo parecem corroborar esta posição, sendo mais do que evidente a deriva para o centro-esquerda daquela que era a única referência à direita com hipóteses de obter representação, e que ainda agora continua a ser maioritária. Na votação do decreto omnibus o PP não questionou o aumento das pensões de acordo com o IPC, abandonando a sua posição anterior de o fazer de forma mais moderada. No debate desta semana sobre a possível tributação do aumento do salário mínimo, o líder popular não só não pôs em causa a medida, que implica um aumento de custos para as empresas especialmente as pequenas e médias, como pareceu fazer causa comum com a vice-presidenta e ministra do Trabalho, Yolanda Díaz, de que esta revalorização não deveria ser tributada, por razões que não são as do ministério responsável pelas questões laborais, suponho.
O PP parece estar a seguir a estratégia oposta e a agir como se não houvesse nada à sua direita, e não só há como parece estar a reforçar-se e a adquirir um perfil próprio.
O presidente popular tentou com êxito esta triangulação, como se diz no argot da comunicação política, em numerosas ocasiões na Galiza, o que lhe valeu várias vitórias por maioria absoluta. Não procurava tanto o entusiasmo do seu próprio partido como evitar assustar os eleitores indecisos, os descontentes com as derivas socialistas ou receosos de um governo bipartido com o BNG. É uma estratégia que, em geral, continua a ser válida para a Galiza, mas talvez não tanto para toda a Espanha. Os modelos de triangulação são concebidos para cenários bipartidários ou, pelo menos, com dois partidos claramente maioritários, mas não para um ambiente em que existam partidos nos extremos. O PSOE já teve problemas semelhantes aos que o PP está a ter agora com o surgimento do Vox, quando quase foi ultrapassado pelo Podemos e teve muita dificuldade em superá-los, e não o fez virando-se para o centro, mas absorvendo muitas das propostas do partido morado.
O PP parece estar a seguir a estratégia oposta e a agir como se não houvesse nada à sua direita, e não só há como parece estar a reforçar-se e a adquirir um perfil próprio. Actuando como está a fazer, com a sua viragem para a social-democracia, está a desconcertar muitos eleitores à direita e ao centro-direita, deixando um espaço cada vez maior, que, seguindo a lógica do próprio Feijóo, a Vox procurará ocupar, e tudo indica que o está a fazer. Por outro lado, a capacidade do PP para captar o voto descontente do espetro mais moderado do eleitorado socialista é fortemente limitada pelo feito de o eleitor socialista sentir, e não sem razão, que o seu voto pode acabar por favorecer a entrada da direita dura na equação governativa, já que os seus votos são essenciais para uma hipotética investidura de Feijoo. Não seria descabido que este partido discutisse um pouco mais de estratégia e um pouco menos de tática quando se trata de afirmar a sua posição sobre as diferentes propostas legislativas. De qualquer modo, é provável que ganhe, mas se precisar da Vox, receio que tenha de renunciar a muitos dos seus postulados actuais. E isto não seria um bom começo.
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