O fin do Império Americano?

Publicado: 05 abr 2026 - 04:10
Miguel´Anxo Bastos
Miguel´Anxo Bastos | La Región

Não parecem ser tempos fáceis para o império norte-americano, sob cuja proteção -ou vassalagem, se assim se preferir- a maioria de nós vive as suas vidas. Se dermos ouvidos às páginas de um maravilhoso livro de Paul Kennedy, “Ascensão e Queda das Grandes Potências”, podemos constatar que isto não é nada de novo na história, pois muitos outros impérios caíram; mais ainda, o feito certo de que todo o império perecerá é uma lei de ferro da política. Também não é menos verdade que o momento em que os impérios caem costuma passar despercebido pela população, pois é algo que não é anunciado nem decretado. Escavações arqueológicas recentes, da época em que os livros dizem que o Império Romano caiu, não só não encontraram nenhuma anomalia como até perceberam uma situação económica relativamente boa, para a época, claro está.

O momento em que o Império americano cair também não será percebido pela população, pois resultará de uma série de eventos prévios que marcarão o seu destino inevitável, mas que não têm de ser percebidos de forma imediata pela população, e creo que estamos perante um desses momentos e, tal como aconteceu com Roma, pode ocorrer numa época de relativa prosperidade, como a nossa. Também não é um processo que se revele numa data histórica, num dia concreto. O dia e o ano em que Rómulo Augústulo, o último imperador romano, foi destituído são conhecidos, mas o processo que conduziu a esse resultado já vinha de antemão, e muitos dos habitantes do império pareciam não se aperceber disso. O ataque ao Irão pode ser um desses momentos históricos, que, no entanto, não são percebidos como tal.

O momento em que o Império americano cair também não será percebido pela população, pois resultará de uma série de eventos prévios que marcarão o seu destino inevitável, mas que não têm de ser percebidos de forma imediata pela população

Em primeiro lugar, os Estados Unidos já não são capazes de se impor militarmente de forma clara em cenários de guerra muito distantes, pois, ao contrário de outras épocas, devido à revolução em armamento de baixo custo, como minas ou drones, o custo da ofensiva tornou-se tão desproporcional em relação aos benefícios, que a vitória militar já nunca é esmagadora. O caso da retirada do Afeganistão, por não conseguir sustentar uma guerra dispendiosa contra exércitos muito menos bem equipados, é um exemplo claro. Em segundo lugar, também não parece capaz de forçar mudanças de regime como o fez no passado. Sem sair do Irão, observamos que, no século passado, os Estados Unidos foram capazes de forçar duas mudanças de regime: a de Mossadegh em 1953 e a do Xá Reza Pahlevi em 1979, substituído pelo atual governo dos aiatolás, e sem necessidade de recorrer à força em nenhum dos casos. Atualmente, é incapaz de derrubar o governo, apesar de exibir um grande contingente militar, ou de apoiar, a partir do exterior, movimentos populares que se revelaram incapazes de o derrubar.

Além disso, há outro fator, também novo, que é o facto de os seus parceiros da OTAN não o seguirem nesta intervenção. Isto, em teoria, não seria algo de novo, pois na invasão do Iraque em 2003 alguns, como a França ou a Alemanha, também não o fizeram, mas a novidade é que, além de se recusarem abertamente a apoiá-lo, alguns deles negaram o uso das suas bases de utilização conjunta e até fecharam os seus espaços aéreos aos seus aviões de combate. Chega-se ao ridículo de que lhes é negado pelos seus aliados o uso de bases que os próprios americanos mantêm e que, obviamente, a sua principal utilização é militar e para os fins que o império entender. Se não as podem usar para uma guerra, não têm utilidade alguma. De qualquer forma, os americanos já não têm liderança, nem moral, nem, pelo que se vê, militar, para enfrentar os desafios mundiais que se lhes deparam. Isto não significa que deixem de ser uma grande potência, mas é de entender que ficarão circunscritos para o seu continente, e que o resto do mundo terá de começar a resolver os seus assuntos sem a proteção americana.

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