Um dia feliz de verão

MI PLAN PERFECTO

Publicado: 27 jul 2026 - 08:05
Miguel´Anxo Bastos
Miguel´Anxo Bastos | La Región

Supõe-se que o verão seja a estação do ano preferida por muitas pessoas e, por isso, é frequente que muitos meios de comunicação elaborem edições especiais para promover o desfrute das longas horas de lazer que essa estação proporciona. Mas creo que, tal como existem críticos ferozes do Natal, também há quem, entre os quais me incluo, veja com pavor a perspetiva de passar horas inteiras sem fazer nada, a queimar a pele deitados ao sol no meio de um calor horrível. Não vejo nada de especial no verão que mereça ser mencionado, mas, mesmo assim, tentarei descrever como deveria ser, para mim, um dia assim nesta estação do ano perfeitamente dispensável, pois muitos países não a têm e, não só não lhes corre mal como até prosperam.

Um dia de verão ideal começaria por me levantar da cama e verificar que está a chover, ou, caso contrário, pelo menos ver nuvens ou nevoeiro no horizonte. Isto significa que, muito provavelmente, as temperaturas não vão ser excessivamente altas, pelo menos de manhã, o que melhora o meu humor. Dado que, infelizmente, o meu local de trabalho está fechado nestes dias, terei de trabalhar em casa. O que o verão tem de bom é que, como não são dias úteis, não terei de preencher formulários nem tratar de burocracia, pelo que poderei dispor de boa parte do dia para estudar e escrever. Reservo para estes dias sem obrigações administrativas os livros de estudo mais complexos e volumosos, pois a fragmentação do tempo a que o trabalho nos obriga durante o período laboral não permite dedicar-lhes o tempo e a atenção que merecem. O primeiro passo é escolher na biblioteca o volume de hoje, tarefa muito agradável mas complexa, pois o livro deve adaptar-se ao estado de espírito e ao interesse do leitor em cada ocasião. Hoje, por exemplo, tive de escolher entre um tratado sobre a repressão na Rússia soviética, “El gran Terror”, de Robert Conquest, um tratado de história global, “El corazón del Mundo”, de Peter Frankopan, e o que acabei por escolher -pois decidi dar-me um capricho-, o primeiro volume do “Tratado de Historia de las Religiones” , do grande mitólogo romeno Mircea Eliade. Apetecia-me estudar um pouco as antigas religiões pré-cristãs.

Um bom dia de verão chuvoso e fresco permite saborear pratos mais consistentes e desfrutar do almorço e da companhia. Mas, infelizmente, esses dias não são muitos no verão.

Após cinco horas de prazer, imerso em cosmologias e hierofanias antigas, chega a hora do almoço. Costumo encontrar-me com alguns amigos para almoçar, mas o que normalmente é um momento agradável de conversa no verão torna-se bastante complicado devido ao calor. Se o dia estiver bom, ou seja, chuvoso e fresco, é possível desfrutar tranquilamente da companhia, mas se for um dia típico de verão, ou seja, quente, até mesmo o ato de comer se torna complicado. Ou se procura um local com ar condicionado, que não é propriamente abundante na nossa terra, ou ficamos condenados a comer fora, em dura competição com todo o tipo de aves e insetos que disputam a comida connosco. Comida que, no verão, é para o meu gosto muito menos apetitosa do que no inverno, pois é rica em gazpachos e saladas leves, ou seja, refeições para enfrentar o calor, não para desfrutar. Um bom dia de verão chuvoso e fresco permite saborear pratos mais consistentes e desfrutar do almorço e da companhia. Mas, infelizmente, esses dias não são muitos no verão.

Terminada a refeição, é hora de dedicar mais algumas horas ao estudo académico, antes de um jantar leve em família, desde que o calor dessas horas não o dificulte; num dia ideal, como o que estou a descrever porém, não haveria tal problema. É também altura de ler o jornal, mas sempre em papel, um hábito que mantenho desde neno. Depois da cea, costumo ler mais um pouco, acompanhado de um bom licor, mas, para esta altura, prefiro a literatura de ficção. O ritual de escolher o livro é também um momento agradável. Seja literatura nacional ou internacional, poesia ou prosa, a escolha é sempre difícil, dada a grande quantidade de bons livros por ler. Hoje escolho entre “Locus Solus”, de Raymond Roussel, “La puerta de paja”, de Vicente Risco, e “En Ruta”, de Joris-Karl Huysmans, e fico com o primeiro, pois tenho tempo abondo. Depois, vou dormir, a ouvir a rádio ou algum podcast. Se é que se consegue dormir, pois todos concordamos que esta é a pior época do ano para o fazer.

Um dia rotineiro e aborrecido, mas feliz. É pena que seja no verão, com os seus inconvenientes. O consolo é que o outono frio e chuvoso chegará em breve, com os seus dias curtos e as suas tardes de chuva.

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